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Aromaterapia: biotecnologias tradicionais utilizadas no Sistema Único de Saúde

Marcela Pinto Barbosa Vassar & Fábio Souto de Almeida

As práticas de prevenção e tratamento de doenças baseadas em conhecimentos tradicionais são amplamente utilizadas em todo o mundo (Veiga Júnior et al. 2005, Rodrigues et al. 2007). Entretanto, no Brasil é vagarosa a adoção de práticas de saúde alternativas ou tradicionais na rede pública (Santos & Tesser 2012). As Práticas Integrativas e Complementares (PICs) são definidas como:

“tratamentos que utilizam recursos terapêuticos baseados em conhecimentos tradicionais, voltados para prevenir diversas doenças como depressão e hipertensão. Em alguns casos, também podem ser usadas como tratamentos paliativos em algumas doenças crônicas” (MS 2020).

A diversidade biológica oferta serviços ecossistêmicos, como os relacionados à provisão de alimentos, a regulação climática, a proteção dos recursos hídricos e a criação de fármacos (Almeida & Vargas 2017). Populações tradicionais em todo o mundo desenvolveram práticas curativas com o uso de organismos presentes nas regiões onde habitam, sendo a biodiversidade a fonte de muitos dos medicamentos, cosméticos e matéria prima para diversos produtos industriais, apresentando valores expressivos no mercado mundial de fármacos (Veiga Júnior et al. 2005, Rodrigues et al. 2007). Assim, muitos dos medicamentos patenteados e comercializados nas farmácias tiveram origem em conhecimento tradicional e sugiram a partir do uso de substâncias contidas em organismos vivos (Ferreira 1998). Biotecnologias podem ser conceituadas como aquelas que “compreendem a manipulação de microorganismos, plantas e animais, com vistas à obtenção de processos e produtos de interesse para a sociedade” (MMA 2020).

Dentre as biotecnologias amplamente utilizadas pelo ser humano, estão aquelas relacionadas com a aromaterapia, que promove a saúde física e mental por meio do aroma de espécies vegetais contidos em seus óleos essenciais, com o uso terapêutico de tais óleos (Brito et al. 2013, Figura 1). A aromaterapia teve início a mais de 4000 anos, estando entre as práticas de medicina mais antigas, além se ser frequentemente utilizada (Bourret 1981 e Gogtay et al. 2002 Apud Brito et al. 2013).

Figura 1. A biodiversidade é fonte de óleos utilizados na aromaterapia. Fonte da imagem: Mohamed Hassan – pxhere (2020). Creative Commons CC0

A aromaterapia é uma PIC oferecida no Sistema Único de Saúde (SUS) sendo reconhecida como uma:

 “prática terapêutica secular que utiliza as propriedades dos óleos essenciais, concentrados voláteis extraídos de vegetais, para recuperar o equilíbrio e a harmonia do organismo visando à promoção da saúde física e mental, ao bem-estar e à higiene” (MS 2020).

Os óleos essenciais derivam do metabolismo secundário de plantas e podem ser extraídos de várias espécies (Duarte 2006). Estudos têm demonstrado que óleos essenciais podem ter efeitos, por exemplo, contra bactérias, incluindo a influência negativa em espécies de bactérias que podem causar malefícios à saúde humana (Carson et al. 2006, Duarte 2006, Pibiri et al. 2006, Pelissari et al. (2010). Pesquisas também apresentam evidências de que a aromaterapia pode ser usada de forma complementar na terapia visando a saúde mental e também física (Horowitz, 2011).

Com o desenvolvimento tecnológico observado no último século e terapia utilizando óleos essenciais foi colocada em segundo plano, mas as limitações e problemas derivados do uso dos princípios ativos sintéticos têm renovado o interesse por essas técnicas tradicionais (Lavabre 1997, Brito et al. 2013). Segundo o Ministério da Saúde “o Brasil é referência mundial na área de práticas integrativas e complementares na atenção básica” (MS 2020). A aromaterapia é oferecida à população brasileira pelo SUS de forma gratuita (MS 2020), embora o serviço ainda não seja de fácil acesso para parcela da população, a depender da região brasileira. É importante que haja incentivos para a formação de profissionais para atuar na prática da aromaterapia, ampliar os estudos nessa área do saber e divulgar os seus benefícios. A criação e execução de políticas públicas voltadas para ampliar a oferta de oportunidades de tratamento com a aromaterapia também é expressivamente relevante para que a população brasileira tenha amplo acesso a essa prática, o que também é necessário para outras Práticas Integrativas e Complementares.

Referências Bibliográficas

Almeida, F.S.; Vargas, A.B. Bases para a gestão da biodiversidade e o papel do gestor ambiental. Diversidade e Gestão 1(1): 10-32, 2017.

Bourret, J. C. Les Nouyeaux Sices de La medicina par lês plantes. Hachette, 1981; 45: 454-76. Apud Brito, A.M.G.; Rodrigues, S.A.; Brito, R.G.; Xavier Filho, L. Aromaterapia: da gênese a atualidade. Revista Brasileira de Plantas Medicinais, v.15, n.4, p.789-793, 2013.

Brito, A.M.G.; Rodrigues, S.A.; Brito, R.G.; Xavier-Filho, L. Aromaterapia: da gênese a atualidade. Revista Brasileira de Plantas Medicinais, v.15, n.4, p.789-793, 2013.

Carson, C. F.; Hammer, K. A.; Riley, T. V. Melaleuca alternifolia (Tea Tree) oil: a Review of antimicrobial and on the medicinal properties. Clinical Microbiology Reviews. 2006; 19(1): 50-62.

Duarte, M.C.T. Atividade Antimicrobiana de Plantas Medicinais e Aromáticas Utilizadas no Brasil. MultiCiência, p.1-16, 2006.

Ferreira, S.H. (Org.) medicamentos a partir de plantas medicinais no Brasil. Academia Brasileira de Ciências e Ministério da Ciência e Tecnolgia-MCT. 1998. 131.

Gogtay, N.J., Bhatt, H.A., Dalvi, S.S., Kshirsagar, N.A. The use and safety of nonallopathic Indian medicines. Drug Safety, n.25, p.14, p.1005-19, 2002. Apud Brito, A.M.G.; Rodrigues, S.A.; Brito, R.G.; Xavier-Filho, L. Aromaterapia: da gênese a atualidade. Revista Brasileira de Plantas Medicinais, v.15, n.4, p.789-793, 2013.

Horowitz, S. Aromatherapy: current and emerging applications. Alternative and complementary alternatives. 2011, 17(1): 26:31.

Lavabre, M. Aromaterapia: a cura pelos óleos essenciais. 4th ed. Rio de Janeiro: Record, 1997.

MMA – Ministério do Meio Ambiente (2020). Biotecnologia. Disponível em: https://www.mma.gov.br/informma/item/7510-biotecnologia.html Acessado em:  28 de junho de 2020.

Mohamed Hassan – pxhere (2020) Disponível em: https://pxhere.com/pt/photo/1435367. Acessado em: 02 de julho de 2020. Creative Commons CC0: https://creativecommons.org/publicdomain/zero/1.0/

MS – Ministério da Saúde (2020). Práticas Integrativas e Complementares (PICS): quais são e para que servem. Disponível em: <https://saude.gov.br/saude-de-a-z/praticas-integrativas-e-complementares> Acessado em: 27 de junho de 2020.

Pelissari, G.P.; Pietro, R.C.L.R.; Moreira, R.R.D. Atividade antibacteriana do óleo essencial de Melampodium divaricatum (Rich.) DC., Asteraceae. Revista Brasileira de Farmacognosia. 2010: 20(1): 70-74.

Pibiri, M.C.; Goel, N.; Vahekeni, N.; Roulet, C.A. Indoor air purification and ventilation systems sanitation with essential oils. International Journal of Aromatherapy. 2006:16(3-4): 149-153.

Rodrigues, C.R.B.; Oliveira, I.L.; Kovaleski, J.L. Conhecimento tradicional associado, patrimônio genético, pesquisa e patente de novos fármacos. XXVII Encontro Nacional de Engenharia de Produção, Foz do Iguaçú, 2007.

Santos, M.C.; Tesser, C.D. (2012) Um método para a implantação e promoção de acesso às práticas integrativas e complementares na atenção primária à saúde. Ciência & Saúde Coletiva, 17(11), 3011-3024.

Veiga Junior, V.F.; Pinto, A.C.; Maciel, M.A.M.. Plantas medicinais: cura segura? Química Nova, 28(3), 519-528, 2005.






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